quarta-feira, 10 de novembro de 2021

CANÁRIA PRISIONEIRA !

 

                                                       
Manhã de raiar chuvosa,
Da relva, úmida e sorridente
Cristalinas gotas como diamante
Brilhavam aos olhos da gente.

No paraíso das selvas
Como maestro a escutar,
O  harmonioso  conjunto
Dos pássaros a cantar.

Como nasceste livre
Dotados de harmonia
Enfeite da natureza,
Dos jardins a alegria.

E no deleite do embalo,
Do musical mais perfeito,
Foi no repente de um estalo
Que o interlúdio foi feito.

Não!não que parasse a orquestra
Dos livres a regozijar,
Mas, que a mais cara maestria
Num grito, como em festa...
Contagiante se pôs a cantar.

Detido pela euforia
Do olhar, o perdido brilho
Da pálpebra umedecida
Eu acompanhei o  estribilho.

E vi que em cada falsete
Do desespero cantar,
Era protesto lembrete
Que a prisioneira inocente,
Falava em seu linguajar.

Não! não era canto...
Era copioso pranto,
Da pureza a derramar
Era por entre a grade,
Que a relva sua cidade
Somente podia olhar.

Da prisão em seu exílio
Talvez  olhasse seu filho
E na ânsia de abraçar,
Gritasse com eloquência,
Que tão forte insistência...
Eu, parei pra ti olhar.

Que paradoxo, minha cara!
Eu sorrir, do teu chorar,
Não entendo a linguagem
Da tua angustia falar.

Chega, não precisa mais,
Da lágrima, o incontido pranto
Foi pra mim como um encanto
Que eu entendi muito mais.....
Do submundo aos mistérios,
A língua dos animais.

Liberta estás, podes  ir,
Vai seguir os teus caminhos
No embalo leve dos ventos,
Carregue os teus intentos
Na construção dos teus ninhos.

Enéas Cândido Lara

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